terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

ODISSEIA NOS BOSQUES DE ZÜSCHEN


De súbito
sou um cavalo alucinado
 a galope / rubro
através dos bosques de Züschen

As faias são rotores
Que se lançam, furiosamente,
Sobre os caminhos
Ouve-se o estremecer da história
Por baixo da pele
Enquanto o turbo dos vermes
Ecoa nas profundezas
Do musgo

Um oceano polar
levanta-se da terra
é um velho navio
regressado
de uma arqueologia esquecida
rasgando  a memória
com um corte de quilha

Ouço o capitão gritando
a tripulação em alvoroço
o microfone do desespero rompendo
as brilhas do sangue
cavalos saltando para a água
as ventas
o último relincho
um  verde arco
ainda capaz de tocar a luz

antes que o casco do silêncio se abata,
de súbito, sobre o mundo

Luís Costa

domingo, 29 de Novembro de 2009

O ENCANTO DAS LISTAS E ENUMERAÇÕES COM UMBERTO ECO


   Umberto Eco. Uma fotografia na página 164 da revista alemã Spiegel, Nr. 45, 02.11. 2009, mostra-o sentado num enorme sofá cor de laranja (estilo anos 70) com franjas que quase roçam o chão. Óculos à intelectual, claro (pois que Eco não é só um grande romancista, mas sobretudo o papa da semiologia) gravata azul, casaco cinzento, calça de um esverdeado tropa, sapatos castanhos, camisa branca, bigode aparado, uma bengala na qual se apoia com as duas mãos em pose aristocrática e sapiente.
   Ao descrevermos a maneira como Eco se encontra vestido, estamos a fazer uma lista.
Fazer listas é fazer cultura. Fazer listas é definir o mundo, os objectos, as pessoas. Enumerar é dar nome, dar uma personalidade àquilo que se enumera, uma identidade. A identidade é uma enumeração, tirar do silêncio as coisas, dar-lhe uma voz. Pois enumerar é dizer, identificar, catalogar, nomear, iluminar. A enumeração das roupas de Umberto Eco mostra-nos o homem à luz da palavra. Enumerar é neste caso não só dizer o que Eco tem vestido, mas muito mais. Ao enumerarmos as roupas de Eco, podemos descobrir ali uma parte do seu modo de ser, da sua identidade. Pois estar vestido é, quase sempre, o mesmo que estar nu. Uma lista de objectos pessoais pode-nos dizer muito sobre o carácter psicológico da pessoa que usa esses objectos. Também James Joyce, no seu romance, Ulisses, descreve, a certo passo, como o seu herói, Leopold Bloom, abre as suas gavetas e enumera tudo quanto se encontra lá dentro. Isto, segundo Eco, é uma lista literária, uma lista que nos diz muito sobre o herói Bloom.  
   Sentado no seu sofá, Eco dá precisamente uma entrevista sobre enumerações, contagens, listas. É que acaba de ser editado na Alemanha o seu livro com o título “ Die Unendliche  Liste “ ( “ A lista Interminável “ ),  e é igualmente esse o mesmo título da exposição que se encontra desde 7. de Novembro  no famoso museu do Louvre  sobre listas e enumerações de que Eco é curador.
O livro, bem como a exposição, debruçam-se sobre a essência de listas, ou antes, sobre poetas, escritores e artistas, que nas suas obras, fazem enumerações das mais variadas coisas.
   Diz Eco que a lista é uma das origens da cultura, parte integrante da arte e da história da literatura. E pergunta: “ O que procura a cultura? “ E ele mesmo responde: “ a cultura procura deixar- nos compreender o incompreensível.”
Isto é, o homem sempre se sentiu fascinado perante a imensidão do universo: por todo lado estrelas, galáxias e galáxias. Como é que um homem se sente quando numa noite estrelada olha para o firmamento? Ele descobre simplesmente que não tem palavras que cheguem para descrever o que vê. No entanto, embora sabendo que as palavras não chegam, o homem nunca deixou de tentar catalogar aquilo que vê. Bem como nunca deixou de tentar exprimir os seus sentimentos. E para isso usa listas. Por exemplo dois apaixonados dizem um ao outro: os teus olhos são bonitos, a tua boca, as tuas pernas, a tua voz etc. isto, para Eco, já é uma lista.
Listas e enumerações, seja do que for, sempre acompanharam o homem ao longo dos tempos, ou antes, são parte inerente da sua cultura, ou como Eco afirma, origem da cultura. Segundo Eco, listas não são coisas típicas, como poderíamos pensar, das civilizações mais primitivas, quando o homem ainda não tinha uma noção concreta do universo. O homem sempre fez listas, seja na antiguidade, na idade média, durante o renascimento, no barroco etc. E, sobretudo, na postmodernidade a lista ganha grande realce.
Há listas de plantas, de títulos, de santos, de filósofos, de escritores, de músicos, de escultores, de moedas, de preços, de comida, de rações de combate, de preservativos, de compras, etc. e, segundo a lista do libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte, Don Giovanni terá dormido com 2063 mulheres. Como vemos há listas para tudo.
Mas terá a lista, que tem quase sempre uma função prática, alguma coisa a ver com a arte e, sobretudo, com a poesia?
   Quanto à arte, citamos de novo Eco:
“ uma tela é realmente como uma lista. “ [... ] “ Eu compreendo, por exemplo, as telas do barroco holandês como listas: natureza morta com todos aqueles frutos, a cópia de opulentas artes e maravilhosas câmaras.“ 
O mesmo se poderia dizer, por exemplo, de uma “ Natureza morta com maças “de Cézannne, ou do quadro de Dali “ La persistencia de la memoria “: o que ali vemos são coisas dispostas de uma certa maneira, no espaço, enfim uma lista de coisas que o pintor inventa, vê e nos deixa ver.
   No que diz respeito à poesia respondemos nós que, embora a uma primeira vista sejamos tentados a afirmar que não, a verdade é que na poesia moderna encontramos muitos e muitos poemas que têm uma estrutura bastante próxima da lista. A técnica da enumeração própria de muitos poetas modernos, centrada no substantivo, é uma prova disso. Vejamos alguns versos de um dos mais belos poemas da poesia moderna portuguesa (Rodopio) em que a enumeração ou listagem é levada até às suas últimas consequências e que exemplifica bem o que acabámos de dizer:

 Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.

Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sois;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas de heróis,
Ondeiam lanças e mastros.

[... ]


Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.

[... ]

Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas -
Um lenço, fitas, dedais...)

Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

[... ]

Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas -
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!...


A fascinação, a intensidade e a originalidade deste poema de Sá-Carneiro encontram-se precisamente centradas na impressionante e alucinada forma da enumeração. Podemos dizer que ao enumerar, criando um poema- lista, Sá-Carneiro consegue dar a estas enumerações caóticas uma forma, neste caso em espiral, evitando assim que o poema se desintegre no puro caos. Quer dizer a lista tem neste poema, tal como no seu sentido prático, um carácter formal regulador: ao fazermos enumerações arrancamos não só as coisas do seu silêncio, mas também lhes damos uma determinada disposição e organização no tempo e no espaço. Organizar é tirar do caos. A lista será assim uma espécie de bússola que nos orienta através das selvas do caos que nos rodeia.

Mas a lista também pode significar uma tentativa de escape, pelo menos na imaginação, à morte. Diz Umberto Eco:
“ Nós temos uma fronteira, uma desencorajadora e vergonhosa fronteira: a morte. Por isso gostamos de tudo aquilo que pensamos ser infinito. Essa é uma possibilidade de esquecermos e fugirmos à morte. Nós gostamos de listas porque não gostamos de morrer. “
Quer dizer, a lista dá-nos uma certa segurança existencial, no centro da absurdidade da rotina do dia -a - dia, perante um mundo inseguro, que nos transcende, e sobre o qual pouco sabemos. Enumerar ou ordenar dá-nos por isso uma sensação de bem-estar. Quando Catalogamos, ou ordenamos, sentimos uma espécie de sentimento de eternidade. É como se pudéssemos manobrar aquilo que enumeramos à nossa boa e livre vontade, como se fôssemos senhores de alguma coisa. Por um curto momento sentimo-nos quase elevados a deuses. Pois fazer listas é uma espécie de jogo e brincadeira. E, como sabemos, só os deuses têm de facto o condão de jogar e brincar uma vida inteira. O homem, pelo contrário, no seu dia-a-dia, tem lutar e trabalhar para sobreviver.
Para além do que acabámos de dizer, uma lista poderá ainda ter um carácter simbólico - transcendente.
Por exemplo: um homem morre, mas ao ser enumerado, ou nomeado, nos arquivos (lista) do registo civil, tanto como data de nascimento (dia, hora, lugar filiação, etc.) bem como data de morte, óbito, ele transcende, por assim dizer, o tempo histórico, a morte. Pois que quem visitar aquele ficheiro saberá que, entre aquelas duas datas, existiu um sujeito com este ou aquele nome. Aquela lista tira-o, por assim dizermos, do esquecimento e do anonimato, dá-lhe uma biografia. Portanto a lista é uma memória que dá uma existência ao sujeito para lá da morte, ou seja, a lista permite que o nome continue a ser nomeado (existir numericamente) dentro dos arquivos humanos, para além do corpo.

   Conclusão: a lista ou a procura de segurança no caos existencial. A lista ou a procura da imortalidade na enumeração do registo civil. A lista – um dos fortes pilares da cultura.


NOTA: as citações que aqui fazemos de Umberto Eco foram extraídas de uma entrevista dada por Umberto Eco à revista alemã “ Der Spiegel “, Nr. 45, e traduzidas para português por Luís Costa


Luís Costa, 26 de Novembro de 2009

sábado, 28 de Novembro de 2009

NO COMBOIO PARA FRANKFURT COM O REVISOR NICOLAI COGOL



8:30 da manhã. Sentado no comboio para Frankfurt. Como sempre, às segundas, a rebentar pelas costuras ( o comboio, claro ) . Ensonado, desfolho o jornal. Leio: “ Herta Müller, Prémio Nobel da Literatura 2009. Mais um Prémio Nobel para a Alemanha. Alemanha das ameixas verdes e do delicioso Sauerkraut com Bratwurst e uma boa Pils a acompanhar.
A certa altura, entra o revisor em cena: Controle de bilhetes. Tem que ser. Há sempre malandros que querem viajar de borla. Em contrapartida há outros, não menos malandros, que viajam de borla e ainda por cima lhe pagam. É o mundo da ironia contrabandista.
Como dizia, o revisor aparece, entrando na carruagem, em sentido contrário ao da direcção em que segue o comboio, ou seja, de frente para mim, que me encontro sentado, metro menos metro, a meio da carruagem. Olho para ele e fico embasbacado. Pois, imaginem – é uma fotocópia perfeita de Nicolai Gogol, o grande escritor russo, que, fisicamente, não era assim tão grande, amigo de Pushkin. Se não tivesse a certeza que já se encontra, há muito (1852), morto, juraria, a pés juntos, que era ele, Nicolai Gogol, o grande escritor russo, amigo de Pushkin, em carne e osso.
Já ao meu lado, pede-me,  num sotaque próprio das gentes de leste, que lhe mostre o bilhete. Meto a mão num dos bolsos interiores do casaco, tiro o bilhete e dou-lho, enquanto, ao mesmo tempo, pergunto: Já alguém lhe disse que o senhor é tal & qual o Nicolai Gogol, o grande escritor russo, amigo de Pushkin?
Ao que ele responde: Sim, já várias pessoas mo disseram. E de todas as vezes eu respondo como agora lhe vou responder: sim, sou eu mesmo, Nicolai Gogol, em carne e osso.
 Estupefacto, digo: Mas como pode ser isso possível, se ele faleceu em 1852. Pelo menos assim está escrito nas enciclopédias de literatura que conheço.
Revisor: Sim, o senhor tem razão. De facto isso é verdade. Mas também verdade é que me chamo Nicolai Gogol, nascido a 1 de Abril de 1952, em Velyky Sorochyntsi, Poltava, Ucrânia.
 Eu: Caramba! Que coincidência: o mesmo nome, nascido no mesmo dia e mês, no mesmo lugar, 100 anos depois, e ainda por cima tal & qual o Nicolai  Gogol, grande escritor russo, amigo de Pushkin.
Revisor: Quanto ao ser parecido, bem como o ter nascido no mesmo dia, no mesmo mês e no mesmo lugar, 100 anos depois, isso é realmente pura coincidência. Porém, no que diz respeito ao meu nome e profissão, já não posso dizer o mesmo.
Eu: como assim?
Revisor: Ora é o seguinte: os meus pais deram-me este nome pelo facto de serem, ambos, grandes admiradores da obra de Nicolai Gogol, o grande escritor russo, amigo de Pushkin. No que diz respeito à minha profissão, tornei-me revisor porque esse sempre fora o maior desejo de minha mãe. E isto porque o livro preferido dela, de Gogol, era exactamente a peça de teatro (comédia): “ O REVISOR “, , que, confesso, nunca li.
Eu: Quer dizer que o senhor se tornou revisor só pelo facto de a sua mãe gostar daquela comédia?
Revisor: Assim é. Embora deva dizer que amo esta profissão e que não me consigo imaginar a fazer outra coisa. Sou aquilo que se chama um revisor inato. Talvez o revisor perfeito.
Eu: de facto uma biografia insólita e encantadora, a sua.
Revisor: Assim é.
E, desejando-me um bom resto de viagem, volta-se e segue, pela carruagem adiante, controlando bilhetes, até abandonar aquela carruagem para desaparecer na próxima.
Eu, ainda olho para trás. Mas já não o avisto. Depois, fechando os olhos, recosto a cabeça ao encosto do assento e, com um sorriso, digo para comigo:
Que admirável encontro, este! Logo, assim que chegar a casa, vou reler a comédia “ O REVISOR “ de Nicolai  Gogol, , o grande escritor russo, nascido a 1 de Abril de 1809 em Velyky Sorochyntsi, Poltava,  e falecido a 04 de Março de 1852,  em Moscovo. 



Nota: O revisor de que se fala na comédia de Nicolau Gogol não é um revisor de comboios, mas sim uma espécie de fiscal do estado. De facto não existe ali nenhum revisor (fiscal).
Por equívoco, os funcionários públicos daquela cidade pensam que Chlestakov é um revisor, e tratam-no mesmo como tal, mas a verdade é que este não o é. Também, por equívoco, porque nunca leu Gogol, pensando que sua mãe se referia a um revisor de transportes públicos, o Gogol da nossa história tornou-se revisor de comboios.
 


Luís Costa




domingo, 22 de Novembro de 2009

«L'âge d'or» ou «Un chien andalou»

http://www.triplov.com/poesia/Luis-Costa/2009/Chien-Andalou/index.htm


sábado, 21 de Novembro de 2009

CADERNO DE BURIDAN: NÓTULAS CIRCULARES

http://triplov.com/blog/2009/11/18/luis-costa-caderno-de-buridan/


sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

CAIS DO VENTRE


 I –

Verbo / palavra primeira / retorno / fonte visceral / natalidade/ origem / original / órfica raiz

 II –

criança /  pura / ainda pura / uma pedra na mão / um rio que corre / os pés / a luz / que os inunda

Luís Costa

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

ENCONTRO COM O CONDE DE LAUTRÉAMONT ( no Triplog )

http://triplov.com/blog/2009/11/19/encontro-com-o-conde-de-lautreamont/